CRÍTICA "Vermelho, Branco & Sangue Azul": Entre o fanservice e o pink money, uma perdoável adaptação ruim
Nota: 0,8/5 🌖🌑🌑🌑🌑
Direção: 0,5/5
Roteiro: 1,1/5
Vermelho, Branco & Azul Real é uma produção original da Amazon Studios que vem sendo muito divulgada e comentada nas últimas semanas. Desde o seu lançamento no Amazon Prime Video, a produção baseada no Best Seller do The New York Times não saiu da página principal do streaming, e a razão é muito simples: a reputação do livro entre uma bolha extremamente engajada e a crescente demanda por obras nichadas neste seguimento. Estamos falando do romance gay, obviamente, também chamado de boys love, um gênero da ficção que engloba livros, filmes, tramas de novelas e séries com que vêm obtendo espaço em um mercado antes majoritariamente heteronormativo. Sabemos, também, que isto é reflexo de um novo tempo onde as grandes empresas produtoras de entretenimento foram obrigadas a criar conteúdo para minorias sedentas por representatividade. Assim, histórias que desconstroem o patriarcado, o racismo estrutural, a transfobia, etc., começaram a pipocar aos montes nas plataformas de streaming, na TV aberta e das estantes de livros.
Dito isto, chegamos ao ponto principal sobre Vermelho, Branco & Azul Real, este filme é resultado das mudanças sociais que o cercam. Hoje as obras com temática LGBTQIAP+ vendem, e não só para o público diretamente representado na história, mas também para mulheres cis hétero, grandes consumidoras da ficção boys love. A popularidade do livro chegou em uma inevitável adaptação cinematográfica, como nos indicados ao Oscar O Segredo de Brokeback Mountain, de 2005, Milk, de 2008, Carol, de 2015, Moonlight, de 2016, e Me Chame pelo Seu Nome, de 2017. Só que com um grande diferencial para estes citados: hoje, as obras com temática gay não precisam e não nascem com a necessidade de serem obras-primas, de terem roteiros reflexivos, focados em um público cult que era o único a abraçar o subgênero. O romance entre príncipe inglês e o filho da Presidente americana do Prime Video é 100% teen, 100% clichê e 100% um produto do capitalismo da indústria do entretenimento. 300% algo que não é novidade nenhuma para quem já viu meia dúzia de filmes que costumam passar na Sessão da Tarde.
Mas, veja, não há mal nenhum nisso. A verdadeira representatividade está em ocupar todos os espaços, e aí está incluído aqueles lugares que costumam ser mais do mesmo. É do romance água com salsicha que estou falando. O protagonista é um poço de personalidade, aquela construção meticulosamente pensada para agradar à todo público que assistir, pois, assim, conseguindo a empatia do espectador, metade do caminho está pronto. Uma trama principal simples que inclua idas e vindas do amor, piadas cafonas, encontros desastrosos e alguma reviravolta com pessoas do seu passado/histórias familiares é a receita de todo filme do gênero. Resumindo (para também seguir a receita clássica da crítica): o filho da Presidente dos Estados Unidos está em um evento oficial da Coroa Britânica, um climão com o herdeiro do trono resulta num escândalo, e nas tratativas de resolver o imbróglio internacional, os dois se veem perdidamente apaixonados. Adicione uma pitada de coadjuvantes charmosos que, na ausência de falas complexas, desfilam referências e easter eggs para a comunidade LGBT. A trilha é clichê, mas a produção de algumas dezenas de milhões de dólares torna a experiência visual agradável... será?
A fotografia é comum, a edição é desnecessariamente frenética e demonstra escolhas de uma realização não profissional. Os cenários são decentes, os figurino são normais, mas, convenhamos, grande parte dos momentos mais esperados do filme são, justamente, quando os protagonistas tiram a roupa. O resultado final é de um filme que parece bem feito, mas só entrega o mínimo possível para uma produção moderna que já nasceu com um público muito bem definido que iria assistir a obra sem que houvesse muito esforço de divulgação.
E não precisou esforço também na criação, pois a direção e as atuações são tudo de mais comum que há na indústria. Para além de uma boa composição do protagonista Taylor Zakhar Perez, seus companheiros de elenco não brilham. Nicholas Galitzine, o príncipe, destoa e causa uma falta de clima no casal, sua intendida profundidade dramática esbarra na inexperiência do ator e na falta de uma condução que soubesse aproveitar melhor as situações. O resto do elenco caminha entre o ok e o ninguém se importa, mas a presença da renomada atriz e Uma Thurman, de Kill Bill, chama a atenção. Sua participação como Presidente americana é um toque de luxo, mas que não entrega bons momentos, pelo contrário, sua expressão é inerte durante toda duração do longa-metragem, e seus diálogos não passam mais inspiração do que a de um ator iniciante que lê o texto do roteiro pausadamente.
Entre as diversas mini tramas que o podemos observar, além de nenhuma ser interessante o suficiente, temos a construção para o drama final: o casal se separa, óbvio; um dos protagonistas apresenta motivos ridículos para não ficarem juntos, óbvio; vilões surgem para o climax, óbvio; no final tudo dá certo e uma bela lição de moral é servida. Neste caso, a importância de respeitar a intimidade afetiva de todos, mesmo que sejam personalidades públicas, de desfazer tradições preconceituosas e castradoras e de respeitar, finalmente, toda diversidade de orientações sexuais.
Voltamos ao ponto onde relacionamos: não há problema nenhum nisso. O resultado final é que o filme não me agradou, por uma miríade de motivos, além dos citados, mas sua existência se justifica, diferente de muitos exemplos. Há mercado, há um público sedento por se ver em uma obra mainstream, há a necessidade de se ocupar com representatividade todos os espaços, e não apenas aqueles classicamente proporcionados. Veja bem, essa representatividade ainda é limitada, pois estamos assistindo uma história sobre dois herdeiros de elites políticas, sem muita tensão no que diz respeito à raça e gênero, tudo muito raso. Há um oceano para ser explorado, mas obras de temática heterossexual sempre nadaram nas poças de uma produção comum e só ultimamente seu preconceito vem sendo debatido e posto em jogo. A cobrança deve ser macro. Vermelho, Branco & Sangue Azul é produto desta indústria, que, assim como faz com todas as pautas, toma para si e diminui a potencialidade do discurso. Mas é impossível passar por cima do conforto que este romance bobo, cafona, clichê, que sempre foi privilégio hétero, conseguiu executar no público engajado que o abraçou.
Poucos bons momentos cinematográficos me impelem a dar uma nota maior que 1 estrela. Mas algumas cenas são realmente heartwarming, ativam o afeto LGBT que sempre precisou fantasiar sobre amores hétero. Além disso, o carisma e a beleza de Taylor Zakhar Perez já são motivo suficiente para apreciar o romance, que gera mais química com o espectador do que com o seu par da ficção.
Assim, assistimos algo que nasceu pronto, muito similar ao livro homônimo, recheado de um conteúdo pouco criativo e destinado ao pink money, investimento esse totalmente aceito pela bolha que o possibilitou, e recebeu 1h58min de fanservice para se deliciar.
Estejam servidos: para você, Vermelho, Branco & Sangue Azul é aquela comida congelada que sempre tem o mesmo gosto, ou é um bolo de casamento, com um tradicional glacé branco, mas com um recheio surpreendente?


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