CRÍTICA "Gladiador": O clássico de Ridley Scott que redefiniu o gênero épico
Nota: 4,1/5 🌕🌕🌕🌕🌘
Direção: 4,2/5
Roteiro: 4,1/5
Quando Gladiador estreou nos cinemas em 2000, o gênero épico já estava bem estabelecido com produções como Os Dez Mandamentos (1956), Ben-Hur (1959), Exodus (1960), Spartacus (1960), Laurence da Arábia (1962), Cleópatra (1963), A Bíblia (1966) e Camelot (1967) entre tantos outros. Produções vencedoras de dezenas de Óscares da Academia, a maioria baseados em personagens históricos. O ciclo que sempre muda as tendências de consumo e produção em Hollywood levou à diminuição dos épicos antigos, substituídos por obras de tom sci-fi e futurístico. O que Ridley Scott faz com sua megaprodução é reviver o gênero com uma forma única e divisora de águas de imergir os espectadores em uma experiência cinematográfica.
Ridley não rompe totalmente com as convenções do gênero, mas as atualiza e eleva à potência máxima. Sem câmeras olhando de baixo pra cima, o olhar penetrante de Joaquin Phoenix é suficiente para transmitir toda falta de caráter do personagem. Cada vez que Cômodo está em cena o ar toma o clima cortante. Nem mesmo a história clássica de jornada do herói macula a surpresa do roteiro, que é ousado, sem dispender tempo com romances insossos ou escapes milagrosos nas situações mais convenientes. Mesmo quando é clichê, a direção de ação é única. Observe a cena em que Máximo (Russel Crowe) é carregado desacordado: o tom de estranheza quebra o dramalhão e mostra ao que o filme veio: imersão total e plena em um enredo que, de maneira geral, é comum. A dimensão do interesse gerado é extremamente oposta à do mais recente filme de Scott, O Último Duelo (2021), onde nem mesmo sua boa direção medieval melhora uma história fraca.
As possibilidades de Gladiador são aumentadas pela grandeza técnica desta produção. Não estamos falando apenas dos figurinos deslumbrantes, do trabalho de som complexo e dos efeitos visuais perfeccionistas vencedores do Oscar em 2001. A direção de arte detalhista e gigante e a fotografia vívida, elegante no trabalho de cores e com enquadramentos que possibilitam uma total compreensão das cenas de ação (ambas categorias que perderam as estatuetas para o deslumbre visual de O Tigre e o Dragão, 2000) são as melhores que se pode encontrar em qualquer filmografia. A montagem também estabelece coloca a régua em um patamar quase impossível de ser atingido pelos filmes épicos seguintes, todos inspirados na qualidade técnica de Gladiador. Nada é confuso na edição, e, ainda assim, as 2h35min não parecem longas (estou olhando para você, Duna, 2021). Completados por uma das melhores trilhas sonoras da história do cinema, onde Hans Zimmer atinge o ápice com sua condução que consegue caracterizar o Império Romano com toda sua diversidade de povos e tensão das batalhas - inclusive com acordes que lembram a trilha de Zimmer para Piratas do Caribe, o que explica a ausência de indicações para esse peça. A categoria de Trilha Sonora também perdeu o prêmio para O Tigre e o Dragão, do diáfano som de Tan Dun.
Na parte das atuações, Russel Crowe foi coroado como o melhor ator do ano por seu Máximo. Mas quem brilha mesmo é o já citado Joaquin Phoenix, na sua primeira indicação ao Oscar. Richard Harris, como Marco Aurélio, e Oliver Reed, como Próximo, também engradecem o elenco - este último morto antes da finalização das gravações. Gladiador terminou, assim a noite do Oscar 2001 com cinco vitórias, dentre 12 indicações. Além de Melhor Figurino, Efeitos Visuais, Som e Ator Principal, também saiu vencedor da categoria principal, Melhor Filme. Ridley Scott se viu mais perto do que nunca de ganhar a premiação máxima do cinema, mas esbarrou em uma edição extremamente difícil. Steven Soderbergh, também indicado por Erin Brockovich (2000), levou o Oscar de Melhor Direção com Traffic (2000). E, ainda que a Academia ainda não tivesse amado Traffic, premiando-o também com Roteiro Adaptado, Ator Coadjuvante e Montagem, a "peladão reluzente" provavelmente teria ido para Ang Lee, na sua primeira indicação, por O Tigre e o Dragão, filme que ganhou quatro categorias naquele ano, por Direção de Arte, Fotografia, Trilha Sonora Original e Melhor Filme Estrangeiro, representando Taiwan. Lee ganharia duas estatuetas de Melhor Direção posteriormente, por O Segredo de Brokeback Mountain, 2005, e As Aventuras de Pi, 2012, enquanto Scott ainda aguarda seu momento, já que não foi creditado como produtor de Gladiador.



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