Oscar 2021 - Análises: Curta-metragem

Melhor Documentário de Curta-Metragem

Meu preferido: Do Not Split

  • Colette: De todos os indicados é o que tem o tema menos "atual", ao explorar as emoções de uma senhora francesa que visita, a convite de um museu, o campo de concentração onde seu irmão foi morto pelos nazistas. Ambos foram parte da resistência durante a invasão alemã na Segunda Guerra Mundial, e o documentário, disponível no YouTube, mostra a relação de Colette com a jovem estagiária do museu que cataloga documentos do período. O temperamento peculiar da protagonista da história surpreende pela ausência de simpatia, deixando a menina que a acompanha encolhida como um ratinho. O roteiro traz poucas informações, quase nada, é como uma conversa com alguém, repleto de mágoas e um olhar enviesado das situações. É básico, clichê, desinteressante e sem alma. Se consegue causar algum impacto no final, é por conta da temática que é emotiva por si só. (🌕🌖🌑🌑🌑1,9/5)
[
  •  A Concerto is a Conversation: O que pode atrapalhar as chances deste documentário (também disponível no YouTube) é seu ritmo mais lento, porque, além disso, possui várias qualidades que podem conquistar votos: atualidade, relevância e relação com o cinema/Oscar. Há um passeio pela história do racismo nos EUA através dos depoimentos de um homem e seu avô narrando suas jornadas em carreiras e em épocas distintas: um jovem músico e compositor e o outro um empregado do ramo de roupas que conseguiu se tornar dono da empresa em que começou. Nada surpreende além do que se espera deste tema, bem ilustrado com imagens de época e instrumentais excelentes compostos pelo próprio protagonista do curta. Não empolga, é previsível e entediante, mas pode chamar a atenção de alguns votantes emocionados com o final, onde ele aparece no palco do Oscar em 2019 com a equipe do filme Green Book, para qual trabalhou na trilha. Totalizando dois filmes superestimados (🌕🌕🌕🌘🌑3,2/5)

  • Do Not Split: dentre os concorrentes é o que mais usa recursos cinematográficos capazes de deixar um ritmo agradável sem ser invasivo, e a relevância urgente do tema o coloca, na minha opinião, como favorito na disputa. Além das qualidades citadas, o fato de acompanhar in loco os protestos em Hong Kong de 2019 conversa com a própria indicação do filme Better Days, representando a região administrativa especial chinesa (decisão inesperada que desbancou favoritos como Two of Us [França], I'm no Longer Here [México] e La Llorona [Guatemala]), numa clara tomada política da premiação que é organizada em um país que está há anos em uma guerra comercial com a China (que, inclusive, tentou banir este curta do YouTube e boicota a atual cerimônia). Se o favoritismo de Another Round provavelmente irá impedir uma vitória em Filme Internacional, Do Not Split pode fornecer uma conquista simbólica para essa disputa ideológica. (🌕🌕🌕🌕🌖4,7/5)

  • Hunger Ward: Dirigido por Skye Fitzgerald (já indicado nesta mesma categoria pelo filme Lifeboat, em 2019), este documentário também se coloca como favorito por trazer um combo de fatores relevantes: a história, focada no trabalho de médicas que tentam salvar vidas de crianças desnutridas vítimas da guerra no Iêmen, é chamativa por si só, e o filme faz questão de nos lembrar que essa é uma mensagem de socorro que deve chegar ao mundo todo... até demais. Usa e abusa de alguns recursos batidos como a fotografia amarelada típica de filmes estadunidenses com cenas ambientadas no Oriente Médio, e uma montagem que foca em coisas aleatórias na tentativa de ser reflexivo, mas não consegue. De maneira mais controversa, mostra crianças em situação de vulnerabilidade extrema e a dor de famílias tentando superar as perdas. Se estas imagens são necessárias para mostrar o horror da situação, os outros recursos não são, então, necessários, passando a impressão de que a obra cinematográfica quer mais atenção que o tópico abordado. Até que ponto deve-se ir para causar pena nos ocidentais? O curta se redime um pouco no final, fazendo uma crítica aos Estados Unidos e outros países europeus pela culpa na guerra. Se os votantes vão aceitar o pedido de Hunger Ward de ser o vencedor, é outra história (funcionou em diversas outras premiações). (🌕🌖🌑🌑🌑1,8/5)

  • A Love Song for Latasha: o fator Netflix o coloca em mais evidência que os demais e sua narrativa envolvente, complementada por um tratamento estético delicado, oferece uma tentação enorme para todos, e deve ser uma questão para os votantes da Academia. Pequenos fatores o tiram do pódio, na minha visão, mas não seria surpresa alguma se ganhasse. A história da menina Latasha, assassinada nos anos 90, é contada através de duas pessoas que tiveram laços com ela e presenciaram fatores importantes do acontecimento que marcou os distúrbios de Los Angeles em 1992 contra a violência racial. Em um contemporâneo pós-protestos do movimento Black Lives Matter, lembrar a história de Latasha é extremamente importante e põe o filme em pauta, mas, talvez, seu ritmo parado não conquiste a todos, soa um pouco experimental demais. (🌕🌕🌕🌕🌗4,4/5)


Melhor Curta-Metragem de Animação

Meu preferido: Opera

  • Burrow: Divertido e levemente tocante, é mais uma simples animação da Disney que não tem muitas pretensões. Se sai muito bem no que se propõe, mas não convence tanto na busca por uma "moral da história" tão "Disneyano", portanto, e assim, não impacta, apenas entretém. Seria uma surpresa se levasse o prêmio que concorre com outros trabalhos mais  profundos. (🌕🌕🌕🌕🌑4,05/5)

  • Genius Loci: Extremamente aclamado em festivais e apreciado pelo seu visual estonteante, este curta dirigido por Adrien Merigeau (conhecido pela direção de arte da animação Song of the Sea, indicada a Melhor Animação em 2015) desponta como o favorito da categoria. Através de uma viagem alucinante através dos medos e fantasias de uma jovem, somos convidados a refletir sobre a importância dos cuidados com a saúde mental. A animação é, de fato, bela, mas não me soou tão acessível a leitura da história e das reflexões propostas, tudo muito vago e surrealista. Uma enxurrada conceitual que abre muita margem a interpretações, inclusive a de que parece ter havido mais cuidado no tratamento visual do que na intenção de se ter uma história verdadeiramente profunda e com críticas entendíveis. (🌕🌕🌕🌘🌑3,25/5)

  • If Anithing Happens I Love You: Disponível na Netflix, apenas este e Burrow, da Disney +, estão acessíveis nos granes serviços de streaming, o que as dão chances a mais de receberem votos pelos membros da Academia, pela sua popularidade. Mesmo assim, como todos os filmes são colocados na plataforma própria do Oscar para os votantes, não há como saber se isto irá interferir, resta saber se irão se envolver por esta história apelativa, piegas, rasa e bizarra que se escora em um tema pesado por si só e desenvolve o mais clichê dos roteiros em cima da expectativa de emoção dos espectadores. Achei que faltou espírito nesta animação, uma intenção de originalidade e um cuidado para que o visual não esbarrasse no grotesco/cafona em determinados momentos. (🌕🌖🌑🌑🌑1,9/5)

  • Opera: Do mais profundo delírio criativo nasce esta obra, que me convenceu em poucos minutos e me proporcionou uma ótima reflexão sobre a humanidade através desta animação complexa, trabalhosa e cheia de significado. Cada canto é um cenário particularmente pensado para fazer parte do todo, e permite que o curta seja assistido diversas vezes com múltiplas perspectivas. O impacto depende totalmente da percepção de quem assiste sobre a crítica proposta, mas não se escora nela, usa como trampolim e possibilita diferentes interpretações, sem ser ambíguo demais e, nunca, óbvio. (🌕🌕🌕🌕🌖4,85/5)

  • Yes-People: Curioso e leve é como esta animação propõe uma crítica aos hábitos viciosos da sociedade moderna, através da observação de alguns moradores de um prédio. Os diálogos são quase todos insinuados com a palavra "sim", passando uma impressão de passividade, também, aos personagens já problemáticos. Mas são problemas cotidianos e a crítica não é agressiva, fere quando nos toca e esta é a grande virtude da história. Porém, até capturar o espírito da coisa, o curta é um pouco entediante e pouca coisa relevante acontece sem a ótica da interpretação necessária. Difícil de convencer todos os públicos, mas não impossível. (🌕🌕🌕🌗3,4/5)













Comentários

Postagens mais visitadas